Diferente da "música pura" (que se encerra em sua própria lógica interna), a Música de Cena é um veículo narrativo. Ela resulta da interação constante entre três pilares: o verbal, o sonoro e o gestual.
A escolha de um determinado tipo de instrumento e do gênero musical a ser adotado tende a referenciar as relações culturais ao que instrumento é associado.
Ex.: um acordeon está culturalmente relacionado a ambientes rurais, enquanto uma banda de jazz ao contexto urbano.
a música de cena nasce no ponto de intersecção entre:
O Verbal: O texto, a palavra e as suas nuances.
O Sonoro: A música, os ruídos e a ambiência.
O Gestual: O movimento do corpo, a cadência da acção e o ritmo visual.
A música só se torna "de cena" quando deixa de ser um evento isolado e passa a habitar a mesma temporalidade do gesto.
Na visão de Tragtenberg, o compositor ou o sound designer não cria ritmos do "nada". Ele deve ler o tempo psicológico do gesto:
Apoio Gestual: Quando o som sublinha o movimento (ex: um som metálico que acompanha o fechar de uma mão). Isto cria uma sensação de "peso" e realidade.
Contraponto Gestual: Quando o movimento é lento, mas a música é frenética (ou vice-versa). Esta técnica serve para mostrar o conflito interno ou a desorientação da personagem.
Para Tragtenberg, a música de cena deve ser incompleta. Se ela for complexa demais internamente, ela isola o material sonoro em seu próprio universo e compete com a cena.
A música de cena deve ser pontual e sintética, fugindo da retórica clássica (introdução-tema-desenvolvimento).
A música não segue apenas o relógio. Segundo Tragtenberg, ela opera em dois planos:
1. Tempo Ontológico: Ligado à similitude e uniformidade (o tempo real).
2. Tempo Psicológico: Procede por contraste e variedade, alterando a percepção de duração da cena.
Enquanto o tempo ontológico (do relógio) é constante, a música empurra o tempo psicológico do espectador para um estado de ansiedade perpétua, fazendo 10 minutos parecerem uma eternidade de tensão.
Tragtenberg define três funções principais para o som/música na cena:
Apoio: Reforça o que já está sendo visto ou dito.
Contraste: Cria uma tensão entre o que se vê e o que se ouve (ironia, choque).
Voz Paralela: A música traz uma informação nova, independente da imagem, criando uma camada extra de significado.
O som pode alterar a "temperatura" da percepção do espectador:
Sons Quentes: Cumprem as expectativas da cena, dissipando dúvidas e direcionando a leitura previsível.
Sons Frios: Quebram a expectativa, introduzem uma visão crítica ou provocam um distanciamento do espectador.
Sons Neutros: Desviam o foco sem criar uma nova conexão clara.
Procedimento: É a ação concentrada em intenções objetivas e originais.
O Procedimento é a acção concentrada em intenções objectivas. É o "como fazer" de forma original e consciente. Segundo o autor, o procedimento valoriza o modus operandi (o modo de operação) e a artesania, ou seja, a capacidade do criador em coordenar os dados do material (o som bruto, o digital) com os dados da imaginação.
Foco na Matéria: O procedimento trata o som como um objecto a ser moldado, filtrado, deformado ou estendido para servir a uma necessidade específica da cena.
Autoria: Ao contrário de seguir uma regra pré-estabelecida, o procedimento é uma escolha inventiva do sound designer para criar uma atmosfera única.
Para entender o procedimento, é preciso entender o seu oposto: o Clichê.
Clichê: É o uso de elementos pré-codificados e gastos pela repetição (ex: usar um piano melancólico sempre que uma personagem chora).
Função do Clichê: Tragtenberg não descarta o clichê; ele afirma que o clichê é útil para uma comunicação imediata com o público, pois não exige esforço de decifração. No entanto, o clichê é uma ferramenta de reconhecimento, enquanto o procedimento é uma ferramenta de invenção.
A paisagem sonora é uma textura que constrói a totalidade da cena passo a passo.
Para compor a música de cena, deve-se:
Buscar Referências Sonoras no próprio texto/roteiro (rubricas).
A entrada de um som (cue) deve ter uma razão clara.
Fade-in/Fade-out: Devem acompanhar a dinâmica do palco/set. O operador deve ter controle total para "cobrir" imprevistos de tempo na cena.